O canto do cisne

 

          É o fim. Sim, é o fim. Eu tentei, me senti culpado, o carinho por este Ebulição (minha primeira aparição eletrônica) saltava, e pedia mais. Mas não dá. O tempo, outros interesses e outra página me consomem, e eu não posso mais. Sabe a criança com o brinquedo novo, e tempos depois,  a necessidade de um novo brinquedo novo? Pois então. Cinco anos de Ebulição iríamos completar. E já estávamos meio parados aqui, algo que acho chato com os leitores. É o fim... Separar-se, ai, ai, não é nada bom. Mas é preciso. A poesia não me corre mais, e escrever contos tem sido cada vez mais difícil. E sobre a sociedade então? E o amor? Deixo isso para minha aulas de história e filosofia. Hoje, outros interesses profissionais e mesmo pessoais me impulsionam com força total para minha outra página. Escrever dois blogs não é fácil, e digo mais, é impossível. Isso se você quiser ser regular e ter qualidade em ambos. Por isso dou adeus ao meu Ebulição. Aos leitores. Às alegrias. Aos contatos, e-mails, comentários... É o fim. Obrigado. A todos. E se quiserem, depois da raiva, visitar o novo mundo a que me entreguei, visite. Conservei a premissa deste aqui, mas já um tema-chave: o cinema. Falo do CINEBULIÇÃO: www.cinebuli.blogsport.com. É, é o fim. Abraço a todos. O Ebulição acabou. T_T


 



Escrito por Luiz Santiago às 11h52
[] [envie esta mensagem] []



Do tempo e sua ação

 

 

     Recentemente tenho pensado muito no tempo. Pois é. Mas refiro-me à questão do tempo como um grande ácido-para-tudo. Porque tudo corrói e nada deixa como fora. O tempo pode estar ao seu lado ou pode, com o tempo, fazer-lhe chorar por um arrependimento ou sorrir por uma consequência positiva.

     No caso das amizades, impressiona-me cada vez mais o caráter volúvel e volátil das relações humanas. E olhem que falo em amizade! No caso das relações íntimas, é tudo muitíssimo “pior”.

     É então certo que somos completamente substituídos e substituíveis? Temos que crer então que somos mimados, solicitados, acariciados, “amados”, apenas quando servimos aos interesses de uma pessoa, amigo, grupo, instituição, etc.? Certamente essa não é a coisa menos dolorosa de se pensar a respeito, mas devo dizer que me povoa a mente há muito, e, a despeito da opinião contrária de pessoas próximas e que amo muito, vejo que na maior parte dos casos, estamos fadados a nos conformar com as poucas porções woodyanas de felicidade que nos são oferecidas, e ainda agradecer aos céus por tê-las! Quão terrível essa condição humana! Viver é uma das coisas mais complicadas de se fazer. Como já dizia o Riobaldo do Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”...


 



Escrito por Luiz Santiago às 03h17
[] [envie esta mensagem] []



"SEM ANA, BLUES"

 

  Zdzislaw Beksinski

 

Análise de Juliana Longano, para o conto de Caio Fernando Abreu

 

 "Sem Ana, Blues" é um conto de Caio Fernando Abreu, que foi um jornalista, dramaturgo e escritor brasileiro. Suas obras falam principalmente de sexo, solidão, do medo, da morte, e apresenta uma visão bem dramática do mundo moderno. Em seus últimos contos - e neles se inclui o "Sem Ana, Blues" - conseguimos ver muitas características do Existencialismo.

O título do conto faz alusão ao estilo musical do Blues, que tem uma melodia triste, e como vamos ver, todo o texto tem uma carga sentimental negativa, triste e pessimista.

O conto mostra um desencadeado de ações, eventos, pensamentos, fatos, a partir do vazio e da falta da mulher amada. E em meio essa falta, depois de ir ao fundo do poço, ele procura várias formar de reagir, de voltar a viver.

No começo, o personagem deixa claro que após que sua amada se foi, a vida dele ficou vazia, como se tivesse um branco, uma ausência; o que se relanciona com a ideia do Existencialismo, de que o homem passa o tempo todo procurando algo que está fora dele, para se complementar, pra preencher, pois existencialmente o homem é vazio. A afirmação disso aparece quando ele diz que podia sim, preencher e espaço deixado por Ana, de muitas formas, mas que o silêncio foi o jeito menos doloroso que ele achou de passar por isso.

Conseguimos observar que o personagem está sempre na espectativa, na ansiedade de que o telefone, que a campainha toque, e que seja Ana voltando.

Os vícios que ele começa a ter, como o da bebida, serviam como uma fuga. Primeiramente uma fuga dessa ausência de Ana, mas que na verdade era uma fuga dele mesmo, uma fuga da sua existência, pois a Ana não existia mais em seu mundo, ela já tinha ido embora, ela realmente só existia ainda, na memória da personagem.

Depois dessa fase, de sofrer a ausência de Ana, de se sentir deslocado, ele começa a ter vontade de matá-la. De matar todos os símbolos que lembram ela, o que remete a ideia de que nós damos o significado às coisas. Então, mandou os lençóis que tinham o cheiro dela, serem lavados; trocou os móveis da casa e começou a sair com outras mulheres. Ele fazia tudo ao contrário, tudo o que não lembrasse de Ana, inclusive com as mulheres, "Se Ana tinha os seios pequenos e duros, eu as escolhia pelos seios grandes e moles(...)". Ele tenta se identificar com essas mulheres, o que é em vão, já que nelas, ele só encontra o prazer físico, o sexo, diferente de Ana, que era algo grandioso, metafísico. E após ficar com essas mulheres, se sentia arrependido depois, como se tivesse traído Ana. Se sentia tão culpado pelo término, que continuava esquecendo da sua própria existência.

Com o abandono ele tenta se reconstruir por fora, tenta encontrar sua auto-estima novamente, indo do ciclo de anunciações até o ciclo do novo corte de cabelo, do guarda-roupa mais jovem, de trocar as armações do óculos, começando assim se sentir melhor, sentir que tinha esquecido de Ana, que se permitiu até passar os fins de semanas viajando. Essas são as tentativas de preencher aquela falta, a tentativa de esquecer. Mas no fim, ele ainda se vê sentado em seu apartamento, como o conto começou. Mesmo depois de tentar preencher sua lacuna vazia, sempre temos um retorno à situação inicial, ao sofrimento de ter perdido Ana.

Um fator que índica que a personagem esquece dele como existência, de que ele não consegue de fato mudar por dentro, é o anonimato. Em nenhum momento do conto, ele cita seu nome. Dá personalidade a todas as outras coisas, menos para ele mesmo. E também, em nenhum momento do conto o personagem fala das memórias dos momentos vividos pelo casal. Ele chega a dizer até, que nunca falou de Ana pra ninguém, "Nunca ninguém soube de Ana em minha vida. Nunca dividi Ana com ninguém. Nunca ninguém jamais soube de tudo isso ou aquilo que aconteceu quando e depois que Ana me deixou".

Notamos que a personagem está sempre a procura do seu prazer, sempre a procura de outras coisas, de outras ocupações, para preencher sua essência, mas na verdade essa procura por algo que dê prazer nunca acaba, nunca existirá o prazer completo, a satisfação plena. E por isso ele vê que sua realidade, sem Ana, é infeliz, pois apenas ela preenchia o que faltava nele, para o personagem ela representava a felicidade, a alegria, a vida. Era como se Ana fizesse parte da essência, da identidade dele.

Depois de vermos todo o relato da personagem chegamos na conclusão de que ele não estava fugindo realmente de Ana, e sim dele mesmo, como já foi citado. E de que não somos totalmente felizes sozinhos, as pessoas, as coisas em torno de nós, são o que geram nossa felicidade. Como Ana era parte de sua existência, após ela ter ido embora, era como se o personagem tivesse morrido por dentro, então essa felicidade se torna impossível, pois ele não estava bem com ele, e nem com as coisas ao seu redor. O tempo então, fica parado entre o "quando" e o "depois". Conseguimos também, chegar a conclusão, que todo momento de felicidade e prazer é breve, de que a felicidade vem em surtos, em alguns momentos e que como foi dito, quase sempre depende de outro alguém.

E no fim do conto ele ainda se compara como uma bolha opaca, parada no meio de sua sala. E deseja que um vento súbito, leve ele, a bolha de sabão, daquele ambiente opressivo, ou que alguém espete nela um alfinete, para que ele estoure no ar azulado e desapareça sem deixar marcas. Se pensarmos mais um pouco, esse alguém que estoura a bolha, pode ser ele mesmo, e esse "estourar" pode significar a morte, o suicídio, a morte física, já que por dentro, na sua essência, ele morreu quando Ana se foi; e mesmo depois de tantas tentativas de se reconstruir, de se achar, de tentar preencher sua essência de algum modo, ele ainda sofre, ele ainda sente a dor, o sofrimento de não ter Ana ao seu lado. O único modo de fazer com que essa ausência acabe, é a morte.



Escrito por Luiz Santiago às 11h01
[] [envie esta mensagem] []



POÉTICOS TONS, PASTÉIS

O Retorno de Ulisses - Giorgio De Chirico

 

 

Este conto é para todos aqueles que sofrem de vontades emendadas, segundo conceito de Guimarães Rosa...

 

Baseado nos versos do poema VI, de Dez chamamentos ao amigo, de Hilda Hilst.

 

“Fiz isto”, me diz a memória. “Não posso ter feito isto”, diz meu orgulho de forma inflexível. Finalmente, a memória cede.

Nietzsche

 

Sorrio quando penso

Em que lugar da sala

Guardarás o meu verso.

Azul. Assim era o mundo, as paredes dos pequenos edifícios, o bonde que me levava para o pátio próximo à feira de artes. Eu vestia um longo manto verde e segurava um livro – a foto de Mao, na capa meio molhada pela chuva fina, me sorria com indulgência pelo meu medo politicamente passional. O bonde parou ao lado de uma fonte, e eu desembarquei assustado e meio zonzo. Não sei se pelo calor ou pela má digestão ou por ambos, mas eu estava péssimo naquela tarde. Caminhei cabisbaixo pelas barracas coloridas em meio ao universo azul que me cercava. Quis parar para apreciar uns cartazes de Hong Kong, mas quanto antes eu chegasse ao meu destino, melhor. Minha tatuagem de javali na mão esquerda chamava a atenção de alguns transeuntes, que acabavam me olhando com interrogativo respeito. Antes de chagar ao fim das fileiras de barracas, eu vi Ângela encostada em uma árvore, e antes que pudesse sacar a arma escondida no livro-compartimento, eu acordei, sobressaltado.

 

Distanciado

Dos teus livros políticos?

Na primeira gaveta

Mais próxima à janela?

Negro. Assim era o meu quarto àquela hora da madrugada. Esfreguei os olhos, que se negavam a abrir decentemente, e acendi a luz. Após a habitual cegueira, vi, com espanto, que só dormira uma hora aquela noite. Isso vinha me acontecendo há mais de um mês. Lembrei-me do livro de Stephen King, Insônia, e sorri com amargura. Só me faltava começar a ver as auras do universo... Com o peito doendo e uma tristeza que era quase uma premonição, levantei-me e fui à janela da sala. Da minha visão privilegiada do sétimo andar, chamou-me a atenção um grupo de adolescentes que fumavam próximos à piscina do condomínio. Um pastor belga pulava em torno deles, e eu reconheci Dix, o cão de Joaquim, filho da vizinha do 714B. Qual daqueles garotos era ele?

 

Tu sorris quando lês

Ou te cansas de ver

Tamanha perdição

Amorável centelha

No meu rosto maduro?

Branco. Como eu podia ser incapaz de identificar o garoto que até três anos atrás fora meu enteado? Sem muito ânimo, caminhei até o rádio da sala e o liguei, esperando algo que gostasse. Vaguei por algumas estações até reconhecer os acordes iniciais de You know i’m no good. Deitei-me então no sofá e balbuciei a música do início ao fim – e até dancei, da forma mais ridícula possível. O locutor interrompeu as últimas notas dos metais e anunciou, como se fosse um profeta do Antigo Testamento: duas horas e quarenta e cinco minutos, São Paulo. Bom dia a todos os ouvintes da nossa rádio... Estranhamente, eu me vi pensando em Ângela nua em sua cama àquela hora, ressonando do jeito mais doce... O telefone. A essa hora, quem será? – pensei.

_ Alô.

_ Tio?

_ Quem?!

_ Sou eu tio, desculpa aí... É o Joaquim.

_ Oi, Quim. Eu vi você pela janela...

_ Eu vi sua luz acesa daqui de baixo... Tio... Eu posso dormir aí?

_ Aqui?

_ É que eu estava curtindo unzinho com meus amigos... E... Minha mãe me mata se eu chegar em casa bem louco. Ela vai falar comigo, e...

_ Ok, Quim. Sobe aí.



Escrito por Luiz Santiago às 13h59
[] [envie esta mensagem] []



POÉTICOS TONS, PASTÉIS II

Eu te pareço bela

Ou apenas te pareço

Mais poeta talvez

E menos séria?

Vermelho. Joaquim estava ofegante e muito vermelho. É provável que o tempo de sua demora desde que falara comigo ao telefone, tenha sido preenchido com corridas dele, Dix e seus amigos, em torno dos prédios. Quando abri a porta, ele me deu um abraço apertado e foi direto para a cozinha. Desde que eu me divorciara de sua mãe, há três anos, eu e Quim sempre saíamos para fazer alguma coisa juntos. Com o tempo, essas saídas se tornaram mais escassas até não mais acontecerem. Joaquim já tinha barba e era maior que eu. Há muito aquele garoto de inquietantes olhos verdes não era mais um adolescente. Eu voltei a deitar no sofá, e me espantei que ainda tocassem You shook me no rádio. Joaquim gritou da cozinha que aquela música era “boa pra caralho”.

_ Quer que eu te leve alguma coisa, tio?

_ Tem cerveja na geladeira e salgadinho no armário. Me traz umas duas latinhas e um pacote de salgadinho.

_ Belê.

_ Quantos anos você tem agora, Quim?

_ Dezenove, né tio. Quase vinte.

O garoto trouxe um prato com uns oito sanduíches de presunto e queijo com maionese, meu salgadinho, e voltou à cozinha para buscar as cervejas para mim e para ele. Eu desliguei o rádio e liguei a tevê. Ele pegou o controle remoto e procurou outro canal. Depois de assistirmos por alguns minutos o que se passava na tela, começamos a trocar impressões sobre como era estranho aquele “sexo artificial” dos programas eróticos da madrugada. Ele me perguntou se eu já fizera essa ou aquela posição mais ousada com as minhas minas. Eu respondi que aos quarenta e cinco anos de idade, já fizera de tudo em matéria de sexo. Ele perguntou como era ter duas minas na cama. E perguntou muitas cosias, conforme as horas corriam. Quando eu pedi que ele me trouxesse mais cerveja, e a forma de pastéis que estava no forno, sua ereção sustentava a calça moletom como uma estaca em uma lona. Eu ri, e ele ficou mais vermelho do que quando chegara. Meu espírito cinza ganhava cor, ao passo que bebíamos e conversávamos.

...

Por fim, dormimos.

O que pensa o homem

Do poeta? Que não há verdade

Na minha embriaguez

E que me preferes

Amiga mais pacífica

E menos aventura?

Amarelo. Era o primeiro dia do verão, e já às dez horas da manhã, o sol brilhava com força. Eu estava mais disposto do que nas últimas semanas. Levantei-me nu como estava, e com a alma transparente, fui ver se Joaquim já havia acordado. Como esperava, o sofá-cama estava vazio. Escovei os dentes e fui preparar algo para o café. Na forma de pastéis, na cozinha, estava o bilhete:

 

Valeu pela dormida, pela noite.

Deixei o Dix pra você. Vou embora.

Não conte pra minha mãe que eu estive aqui ontem.

Você tem meu e-mail, não tem? Me escreva assim que puder.

 

                                                                                                        Quim

 

Que é de todo impossível

Guardar na tua sala

Vestígio passional

Da minha linguagem?

Violeta. Assim era o mundo, as paredes da minha casa, os pastéis à minha frente, a consciência que me levava para o pátio do meu passado imediatamente recente, no qual eu não queria acreditar. Mas... Não havia nada para acreditar. Eu devorei os dois pastéis que restaram na forma, com uma raiva incontrolável. Tentei relembrar de um ou outro detalhe, mas...

 

Eu te pareço louca?

Verde. Do hall do prédio, eu pude ouvir os gritos de Ângela. Liguei o rádio em alto volume para encobrir aqueles lancinantes gritos maternos. E cantei Diz nos meus olhos (inclemência) do começo ao fim – e até dancei, do meu melhor modo possível. Como um caleidoscópio de cores, várias idéias me surgiram para a vinheta que haviam me encomendado semana passada...

 

Eu te pareço pura?

Cinza. Lágrimas. Chuva. Joaquim não entendera porque o tio nunca lhe havia escrito um e-mail... Quando descobriu que um ataque cardíaco o matara no dia seguinte à noite-vermelha, um sentimento de culpa o invadiu. Beatriz, sua esposa, grávida de seis meses, cantava Il vecchio e Il bambino enquanto preparava pastéis de queijo e outros salgados, para comerem enquanto vissem os filmes de terror que haviam alugado para aquele feriado prolongado que passariam em casa, curtindo o frio e a chuva. Um pássaro pousou no parapeito da janela, procurando abrigo.

 

Eu te pareço moça?

Multicor. Assim era o mundo, a tevê, o pássaro das plumas de cristal, o gato de nove caudas e as quatro moscas no veludo cinza. Joaquim sentiu a mão de Beatriz apertar a sua, com medo. Eles riram. A chuva agora era um terrível temporal...

 

Ou é mesmo verdade

Que nunca me soubeste?



Escrito por Luiz Santiago às 13h50
[] [envie esta mensagem] []



Aff...

Odeio a tecnologia, às vezes... Tenho um conto pra publicar, mas essa bosta de servidor tá dando pau. Aff...



Escrito por Luiz Santiago às 21h19
[] [envie esta mensagem] []



"DE LUA"

 

    Como são as coisas, não?

                Eu já não me espanto muito com as alternâncias de humor e personalidade das pessoas que me cercam. Já sou vacinado contra a maldita falsidade alheia e sua insistência em aparecer nas horas e momentos em que você menos precisa. Ok, mas e daí? E daí que mesmo sem me espantar com isso, devo dizer que esse tipo de atitude (mudanças da água para o vinho) me incomodam. E dizem que eu sou pessimista demais, que eu deveria sempre ver a luz no fim do túnel. Ahã! Luz no fim do túnel o caralho. Quem, e em qual lugar, nunca sofreu, percebeu ou foi afetado por essas “mudanças da lua” que assolam algumas pessoas? E o pior é que depois cobram-lhe indulgência, compreensão: “e se fosse você no meu lugar?”. Ah, se fosse eu no lugar... Sem comentários. Prefiro não pensar em traições de amizade, ou mentiras propositais. Mesmo pessimista, teimo em  ser (como Albert Camus já diagnosticara) uma criatura outra, um ENTENDEDOR das coisas. Confesso que não é tarefa fácil. E não tenho inveja nenhuma que de quem não o faz.



Escrito por Luiz Santiago às 17h12
[] [envie esta mensagem] []



"OS LONGES"

O Castelo nos Pirineus - Magritte

 

          Eu ando meio místico por esses dias. Pois é. E olhem que não estou sendo irônico! Comecei assim esse texto, porque quero falar de coincidências, e “coisas cósmicas” – eu disse que estava meio místico!

 

          Lá vamos nós.

 

          Sabem a sensação de às vezes “aquela coisa” ter-lhe acontecido só por um motivo específico? Já pensaram em alguém e o telefone tocou um minuto depois? Já se sentiram como um “pára-raios de problemas”? Quem joga os dados do Universo afinal? Não proponho que vistamos uma túnica e subamos a já esquecida Montanha Mágica. Mas o mundo está tão ruim, que um pouco de fé (eu Deus ou outras coisas) não faria mal a ninguém. O Rubem Alves é muito claro quando fala da queda da religião: “os economistas não invocam as forças do inferno para fazer previsões na Bolsa”. É verdade. Mas tudo é tão caótico, que, ao pensar nas “minimezas” que nos cercam, batemos de cara com um princípio de equilíbrio (como percebem, já parto para a filosofia clássica, aqui) que espanta os mais céticos. Nosso processo de aprendizado é um bom exemplo. Ontem, saí com a minha alma gêmea pra tomar um latte lá no Vanilla. Nossa conversa foi pontuada por questões desse tipo. A gente sofre loucamente por certos acontecimentos, mas depois, parece como se aquilo fosse extremamente necessário para que continuássemos vivos! É um mundo estranho, o nosso...

 

          Acabo de ler um livro incrível, o novo lançamento do noruegês Jostein Gaarder: O Castelo nos Pirineus (2010). Confesso que tudo isso aqui é influência direta da leitura, posto a briga razão X “fé” é a coluna da obre. Mas se me fez “olhar pela luneta de Galileu” com outros olhos, certamente fará com que vocês parem e pensem sobre o tudo dentro do todo.

 

          E isso é tudo.



Escrito por Luiz Santiago às 15h37
[] [envie esta mensagem] []



UM POUCO ANTES, BEM DEPOIS

ATENÇÃO: Este conto pode ferir a religiosidade de algumas pessoas. Se você é um leitor fanático, beato, reacionário ou tapado, nem perca seu tempo. Vá ver TV.

 

Mais uma vez, para os religiosos. E para Leila, que impulsionou a ideia.

 

   Nunca cometo o mesmo erro

duas vezes

   já cometo duas três

quatro cinco seis

   até esse erro aprender

que só o erro tem vez.

 

Paulo Leminski

 

 

_ Deveras.

_...

_ Mas penso que é hora de tentar...

_ Novamente? Dor, sangue, o que mais...?

_ Dessa vez não vai ser assim.

_ Tá.

_ Será a sexta vez!

_ Mas todo mundo que foi...

_ Agiu precipitadamente, era...

_ Mártires de primeira viagem?

_ ...

_ ...

_ As armas...

_ As armas são sempre as mesas, pai.

_ O inimigo...

_ Está cada vez mais forte e famoso?

_ Então acabamos com tudo?

_ Calma. Sei lá, só a metade?

_ E a outra, como é que...?

_ Pois é, eu não tinha pensado nisso.

_ Eu deveria ter pensado mais antes de...

_ Lá vem.

_ Mas é verdade!

_ Então, por quê tentar novamente?

_ É...

_ E se a gente mandasse o maior...

_ Não funcionaria. Não foi pensado assim. E seria preciso...

_ O quê?

_ Hum... E se Eu fosse, e falasse com eles?

_ É para rir agora?

_ Qual o problema?

_ Vai fazer tudo perder a graça! Você disse agora mesmo que...

_ É mesmo. Mas a gente podia mudar...

_ Só pioraria. E o inimigo podia usar isso contra a gente.

_ Livre...

_ É.

_ Já sei.

_ ...

_ Não me olhe assim, é uma boa ideia!

_ Eu posso ir!

_ ...

_ É! Eu posso ir! Eu falo bem, sou inteligente... Poderia muito bem...

_ E para voltar?

_ Do mesmo jeito que eles.

_ ???

_ Não me olhe assim, é uma boa ideia.

_...

_ E então?

_ Não sei. Para voltar como eles, deveria ser algo importante, pra chocar, senão não adianta.

_ Concordo.

_ Então, como você...

_ Afogado?

_ Não.

_ Queimado?

_ Não. Eles vão usar isso mil e poucos anos depois de você nascer, então...

_ Comido por algum bicho bem grande?

_ Não.

_ Pregado numa cruz?

_ ...

_ Não me olhe assim, é uma boa ideia! É chocante e tudo mais.

_ De fato é.

_ E então?

_ Certo. Vamos acertas os detalhes da sua ida.

 

DOIS MIL E NOVE ANOS, TRÊS MESES, TRÊS DIAS E SEIS HORAS DEPOIS...

 

_ Pai?

_ Diga.

_ Olha ali.

_ Ali?

_ Não, pai, ali só tem peixes, esqueceu? Ali, ó.

_ Ah, sei. É pra ver o quê, exatamente?

_ Aquele descabelado de regata vermelha e cueca...

_ Pecado.

_ É, mas não é isso. Olha o que ele está...

_ Meu Deus!

_ Pai, é horrível falar de si mesmo na terceira pessoa.

_ Tá, que seja. E como ele sabe que...?

_ Não sei! Será que...?

_ Será que...?

_ Vamos lá dar um susto nele?

_ ...!!!

_ Não me olhe assim! É uma boa ideia!



Escrito por Luiz Santiago às 12h14
[] [envie esta mensagem] []



A DESMULHERAÇÃO DA MULHER

 

         Pode-se dizer que o neo-feminismo encontrou sua maturidade após o fenômeno Lady Gaga. Em uma edição recente da Revista Cult, li um artigo muito interessante a respeito e concordo com a abordagem. A mulher independente que enlouquece por um “Bad Romance”, que clama por um homem cheio de defeitos e testosterona a toda prova (“[i want] your vertigo stick”) é a face da Nova Mulher do século XXI. No Brasil, leis e intensa abordagem da imprensa sobre violência doméstica (parece que NUNCA houve isso, parece algo novo, parece... só parece...), e louvor à independência feminina são berrados aos quatro ventos. Palmas para a Ultra-Mulher 2010. Mas o que tudo isso encobre, com uma fina e nojenta membrana ideológica, é o fato da mulher ser, mais do que nunca, produto de venda e menosprezo contra-cultural. 

          Elas já foram chamadas de brotinhos, princesas e gostosas. Hoje, recebem alcunhas incríveis: minas, thuthucas, cachorras, atoladinhas, vagabundas, novinhas, etc. Parece que algumas tendências musicais desenterraram o baú dos horrores chulos e resolveram que as mulheres deveriam se orgulhar de serem mandadas para lugares que me recuso a escrever aqui, não por pudor, porque não tenho isso, mas por protesto. As mulheres, apesar de toda a onda independente que banha a praia desta década, ainda são vítimas de sadismo e perversões públicas, seja em músicas, vídeos, propagandas de cerveja, etc. O corpo feminino, por sua doce beleza, se torna a mais incrível nota de venda. Já perceberam que todo o tipo de propaganda e divulgação não abre mão de uma bela mulher? Quando estiverem próximos  a concessionárias e prédios em construção, observem quantas mulheres não são usadas para entregar os panfletos ou fazer showzinhos convidativos. Mesmo com toda a falsa moral burguesa e uma patológica visão sobre o sexo e a nudez, quando se fala de mulher, parece que algumas coisas são liberadas, porque “não há outdoor melhor”. Olhem os clipes musicais. Para deleite de alguns ou não, as garotas estão cada vez mais nuas. Haverá o dia em que veremos divas pop dançando “com tudo a flutuar no rio”? Não digo que seria algo exatamente ruim. Na verdade, ruim, não é uma palavra que se aplica ao fato em si. Ruim é o apelo e o impulso que gerou a tal nudez. No cinema, isso também foi motivo de crise (e censura) a algum tempo, mas ao que parece, o apelo da nudez pela nudez (e tudo o que ela envolve) tem sido adequado, pelo menos em alguns casos, a intenções artísticas: Eva Green em Os Sonhadores, os seios das atrizes nos filmes de Eric Rohmer, Penélope Cruz em Abraços Partidos e Elegia, etc.

          Algumas Vênus não se importam com o uso comercial de seu corpo. Ou não vêm problema em dançarem nuas em bailes-sexo e protagonizarem cenas de humilhação da figura feminina. Para algumas mulheres, isso significa que são donas de seus próprios seios e coxas e podem fazer o que quiserem com eles, seja onde for, não importando quem banca a exibição, ou que imagem ela passa dela mesma. O efeito da Playboy, desde sua fundação, em 1953, alcançou hoje patamares para além das páginas. As belas modelos nuas saíram das capas das revistas, os lindos rostos das stars saíram das telas do cinema e se tornaram mais um dos muitos ingredientes do mercado da propaganda.

 

 

  

 

          Não sejamos ingênuos, achando que essa exploração da figura da mulher é algo novo. Mas o menosprezo banal feito dessa figura é sim, algo novo. Não defendemos aqui o uso sacrossanto ao estilo “Maria, mãe de Jesus” do corpo feminino. Que as revistas masculinas tenham longa vida, que as atrizes continuem protagonizando cenas picantes. Não é isso que nos incomoda. O que está posto em questão, é o rumo “contrário” que as coisas ganham a partir dessa nova exposição: ao invés de enaltecer, fazer belo, aliado à arte, e dar a devida importância à mulher, nosso mercado midiático contemporâneo tem marcado um retrocesso, dando ao (antigo?) "sexo frágil" o mesmo valor que um celular bonito, uma garrafa de cerveja gelada ou um carro novo. E aí mora o perigo: os celulares saem de moda, a cerveja esquenta, o carro sai de linha, e a mulher-objeto envelhece... O que antes era só aplauso, vira motivo de recusa, não serve mais para venda, porque, quem vai querer comprar um produto “enrugado e feio”?

          Não nos esqueçamos, entretanto, que vivemos em um mundo capitalista, em plena Era do Espetáculo. Se servir para algum tipo de comercialização, mesmo que embebido em falsa homenagem (o caso Dercy Gonçalves é um clássico), a mulher será usada, e todos os seus “feitos de outrora” serão lembrados, e a sua belle époque trazida à tona. É uma situação terrível (ainda mais com as novas categorias ortifrutigrangeiros das feminices modernas: “Mulher Melancia”, “Mulher Abóbora”, “Mulher Melão”, “Mulher Batata”, “Mulher Nabo”, etc.), a ponto de fazer chorar as belas ninfas e deusas do Olimpo. Um dó.



Escrito por Luiz Santiago às 17h25
[] [envie esta mensagem] []



FELICIDADE TERCEIRIZADA

 

       

          Agora que o Brasil foi pro saco, a turba voltou à profunda tristeza. Já perceberam que as pessoas dependem de datas e eventos específicos para serem “felizes”? A felicidade virou produto de consumo ou evento de massa. Se não é isso, se não existe um montão de gente indo pelo mesmo caminho, se não há uma multidão de ovelhas fazendo a mesma coisa, parece que não há felicidade.

          As pessoas se tornam muito patriotas e muitos felizes quando há eventos internacionais esportivos. Mas quando se fala de BRASIL em qualquer outro momento, o que não falta é xingamento. Felicidade e consciência política dependem do que se pode comprar, vender ou exibir em público, caso contrário não existe nenhuma das duas. Se você pode explodir rojões, sair com sua camiseta verde e amarela, soprar sua vuvuzela e gritar GOL, o Brasil é um bom país e você é feliz. E agora, que não há mais? Ah, agora o Brasil voltou a ser o paisinho subdesenvolvido e xexelento que sempre foi, na visão de muitos. E o riso fica restrito agora a reunião com amigos ou em multidões. Coitados...   

          Qual será o próximo evento a trazer felicidade e brasilidade à nossa população? Que outra coisa de arrastar multidões haverá de trazer sorrisos para um povo que não consegue ser feliz sem depender de eventos externos? Também a felicidade banalizou-se, assim como o amor?

          O Horror... O Horror...



Escrito por Luiz Santiago às 18h28
[] [envie esta mensagem] []



DOIS AVISOS

Senhoras e Senhores:

 

1 - Todas as datas para o concurso foram suspensas por motivos alheios à nossa vontade. Em breve, novos prazos serão publicados.

 

2 – O Ebulição não receberá mais nenhum artigo sobre cinema, a partir de hoje. Um novo endereço para esse fim está inaugurado. Visite o CINEBULIÇÃO: www.cinebuli.blogspot.com



Escrito por Luiz Santiago às 18h11
[] [envie esta mensagem] []



TAMO I OVDE

 

Ontem eu estava desentulhando coisas que eu tinha comprado, baixado, e ganhado e que ainda não tinha visto, lido ou ouvido. Dentre elas, estava esse filme, Aqui e lá (Tamo i ovde, 2009), uma pequena comédia dramática, produzida pelos Estados Unidos, Sérvia e Alemanha, e filmada nos Estados Unidos e na Sérvia (especialmente Belgrado).

O filme conta a história de Robert, um deprimido saxofonista americano que conhece Branko, no dia de sua mudança. Tentando ganhar dinheiro, já que não consegue mais tocar, Robert entra para a “USA Mudanças”, a “empresa” de Branko, o motorista da van que carrega os móveis. Vendo que não ganharia muita coisa, Robert tenta desistir, mas recebe uma proposta de Branko: ele ganharia US$ 3000,00 se fosse até Belgrado e casasse com sua noiva, para que ela pudesse obter um visto e vir para os Estados Unidos. Começa aí o fio de Ariadne que será desenrolado. O final do filme é de uma sutileza poética muito rara nos dias de hoje.

A música sérvia que segue durante todo o filme é um misto de beleza e graça (no sentido de ser engraçado mesmo), e me lembrou os filmes do Emir Kusturica. A personagem principal é também um misto, embora não se saiba de quê. É difícil saber se você gostou ou antipatizou com ela. No entanto, a empatia-antipatia criada pelo diretor, tem o seu contrapeso. As outras personagens apresentam comportamentos mais “soltos”, um contraste, inclusive de interpretação com o do protagonista. As mudanças na história, a questão do estrangeiro, a malandragem e o silêncio é algo que exala da obra, no melhor estilo de uma película segura e sem preocupação de agradar a quem gosta de filmes com bombas, metralhadoras e heroína. Me surpreendeu muito. Um ótimo filme.



Escrito por Luiz Santiago às 18h56
[] [envie esta mensagem] []



YOU WILL MEET A TALL DARK STRANGER

 

 

          … e por falar nele, saiu o cartaz de seu mais novo filme, YOU WILL MEET A TALL DARK STRANGER. O filme foi exibido há duas semanas, no Festival de Cannes, fora de competição a pedido do diretor. É provável que o lançamento oficial nos Estados Unidos seja em setembro desse ano. No Brasil, é impossível saber quando... Enquanto isso, o negócio é curtir o Tudo pode dar certo, 2009 (ainda em cartaz), esperar o novo trailer, e cair no clima profético: porque as cartas não mentem.



Escrito por Luiz Santiago às 18h30
[] [envie esta mensagem] []



O WOODY ALLEN ICONOCLASTA DO SÉCULO XXI

ATENÇÃO

O artigo abaixo foi publicado inicialmente no Cine Revista (www.cinerevista.com.br), em Porto Alegre, dia 03/06/2010.

 

Quando escrevi sobre Vicky Cristina Barcelona (2008), eu salientei o fato de Woody Allen ser um dos cineastas observadores-analistas mais argutos da cinematografia contemporânea. Em retrospecto, todos os seus 42 filmes trazem uma observação cínica, zombadora, trágica ou romântica da sociedade. Em cada obra woodyana é possível encontrar, intrínsecas às neuroses e aos comportamentos excêntricos das personagens, a influência do mundo externo político, cultural, etc.. A cada uma de suas fases como cineasta (é válido lembrar que Woody Allen dirige filmes desde 1969), um molde analítico é destacado, e as obras daquele período se encaixam nele. Apesar dessa frase parecer simplista ou preguiçosa demais, não há um filme de Woody Allen que possa ser considerado ruim ou que não tenha qualidade artística. Algumas de suas obras são mais profundas e belas ou melhor dirigidas que outras, mas é só.

Para que possamos entender essa "nova fase século XXI" do cineasta, é preciso voltamos alguns filmes no tempo. Estacionemos em 1999, ano do lançamento de Poucas e boas, a película que inauguraria um período pejorativamente denominado pelos críticos de "fase Woody light", e que contaria com as seguintes obras: Trapaceiros (2000), O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no escuro (2002) e Igual a tudo na vida (2003). Os filmes da fase "Woody light" são, definitivamente (à exceção, talvez, de Poucas e boas), os filmes mais "leves" de toda a carreira do diretor. O que não significa que são menos geniais ou que não possuam incursões artístico-críticas (a "nova burguesia" em Trapaceiros, o cinema dos anos 1940 (com toques noir) em O Escorpião de Jade, a metalinguagem / a indústria cinematográfica em Dirigindo no escuro, a vida (com fortes doses existencialistas, pessimistas e estoicas) em Igual a tudo na vida. Fato é que esses filmes foram feitos realmente para provocar o riso, mesmo "destruindo" certos comportamentos da época.

É nesta fase "Woody light", entretanto, que se forma o embrião para a fase seguinte, quando o humor de Woody Allen funde-se com sua experiência da "fase Bergman" e adquire linha e toques pessoalíssimos, estruturando-se sobre uma narrativa ácida, agressiva (moral, filosófica, ética, direta ou indiretamente) e trágica, ao mesmo tempo. O primeiro resultado dessa linha narrativa do "humor-com-dor" foi o filme Melinda e Melinda (2004), história-dupla narrada em "duas versões": cômica e trágica. É, porém, em 2005, com o incrível Match Point, que Woody Allen, iniciando sua fase europeia, gira de vez a roda da fortuna de seus filmes. O trágico, a narrativa provocativa e ácida passa a ser a condição sine qua non o humor jamais viria. Em 2006, com Scoop, Allen atua no que me parece que foi a sua última participação como ator em um filme seu. É claro que não podemos afirmar isso categoricamente, mas o diretor não atuou em mais nenhuma de suas películas (desde então, já foram quatro filmes finalizados, um que está em fase de finalização e outro que já entrou em pré-produção, e ao que tudo indica, Allen não atuará nele também). Alguns críticos consideram que a morte de Splendini ou Sydney, o personagem de Allen em Scoop, foi uma espécie de finalização de uma era, de uma fase. Apesar de concordar com eles, repito que não é possível tomar isso como verdade absoluta, posto que a obra do cineasta ainda está aberta, muitas surpresas podem vir. Outro elemento que caracteriza a "fase europeia" de Woody Allen, é a sua nova musa, a bela atriz Scarlett Johansson. Dos quatro filmes desta nova fase, ela atuou em três: Match Point, Scoop e Vicky Cristina Barcelona.

Em 2007, Allen lançou O Sonho de Cassandra. Terceiro filme consecutivo do diretor, em Londres, selou a tendência das novas abordagens de Woody Allen: o ataque à família, às instituições e a investigação dos processos (i)morais e (anti)éticos que permeiam toda a sociedade (algo que já podemos ver em Crimes e Pecados, de 1989). A iconoclastia de Luís Buñuel é a coluna que sustenta o "novo Woody Allen". Em 2008, com Vicky Cristina Barcelona, o cineasta embate artistica e culturalmente o Velho e o Novo Mundo, além de ironizar com muito rancor, a formação da família ou dos casamentos/relacionamentos modernos. Em 2009, depois de quatro filmes consecutivos na Europa, Woody Allen retorna a Nova York para filmar Tudo pode dar certo (Whatever Works), obra que carrega forte influência de sua experiência no Velho Continente, e que transporta para sua cidade e seu país, todo o ataque e acidez característica da sua tetralogia europeia.

Tudo pode dar certo é o ápice do pessimismo woodyano. O filme conta a história de Boris Yellnikoff, incrivelmente interpretado por Larry David (que foi massacrado por alguns críticos sob a acusação de tentar imitar o tipo woodyano de atuação, o que, apesar de não ser mentira, é injusto, dado o trabalho estupendo que o ator realizou), um hipocondríaco gênio da Física e indicado ao Prêmio Nobel, que conhece Melodie (Evan Rachel Wood, em ótima atuação sob a direção de Allen), uma jovem de 21 anos do interior do país, e de conhecimento limitadíssimo, que passa a ser "ensinada, educada, civilizada" por ele. Com um roteiro vintage (o filme teria Zero Mostel no papel principal, mas foi engavetado depois da morte do ator, em 1977), Woody Allen retoma a história de Pigmalião, desta feita, revitalizada com especificidades do século XXI e com citações da história recente dos Estados Unidos e do mundo, com "a eleição de um presidente negro" ou o Taliban. Aliás, citações históricas não faltam neste filme. Há referências aos gregos antigos, aos egípcios, aos maias e aos astecas.

Além da narrativa mais "solta", porém não menos pessimista, que as da tetralogia europeia, Tudo pode dar certo traz já nas sequências iniciais a metalinguagem explícita, forma que o diretor não usava em tal magnitude desde A Rosa Púrpura do Cairo (1985). Boris é a única personagem do filme que sabe da existência de uma plateia do outro lado da tela, e tenta mostrar isso, sem sucesso, aos seus amigos. Há momentos em que ele se dirige aos espectadores para discutir elementos da trama, como por exemplo, o momento em que Melodie confessa estar apaixonada por ele. Com isso, já vemos uma mudança na atitude formal interna do filme, no que concerne à narrativa.

Allen já usou muito a figura do narrador em seus filmes, o que sempre dá um tom de crônica às suas películas. Em Tudo pode dar certo, o narrador não é off, nem é totalmente sugerido pela montagem, pela trilha sonora ou pela história auto-narrativa. O próprio Boris, protagonista da história, dá a linha de andamento da obra. Ele é agente e observador dos atos do filme, o que faz de Tudo pode dar certo uma obra de força e proximidade com o espectador muito grande. Além dessa "onipresença" que atrai com cumplicidade a plateia, o filme tem uma das melhores execuções de timing de Woody Allen, e a mise-en-scéne é tão comunicativa e tão forte, que o final não poderia ser outro: todas as personagens do filme em uma sala, comemorando a passagem do ano. As quebras narrativas (cinco, ao todo), marcam fortemente cada minuto do filme. Allen não permite que a história ultrapasse o limite da desaceleração. Quando a sequência esgota sua força narrativa, uma quebra de estrutura do roteiro se dá: o aparecimento de Melodie; de Marietta - a mãe; do Sr. Celestine - o pai; do "amante"; e a tentativa de suicídio de Boris. O roteiro de Tudo pode dar certo é extremamente consistente em sua estrutura, e muito rico em seu conteúdo, embora os temas não sejam nada estranhos à filmografia do diretor. Também vale citar que a direção de Allen está mais contida que em seus últimos quatro filmes.

Se o ataque neste filme é às instituições, em especial a família, o motor da obra é a particularidade de cada integrante desta roda burocrática, e sua mudança, quando em contato com uma realidade que lhe mostra "a luz": Marietta, com seus sonhos artísticos frustrados durante tantos anos, termina como fotógrafa de corpos nus e vivendo em um amoroso ménage-à-trois. Melodie termina alcançando um alto nível intelectual e maturidade. O próprio Boris, que, mesmo não perdendo o pessimismo típico de sua personalidade, termina com um excelente monólogo otimista na cena final. O pai de Melodie, membro da Associação de Rifles, termina companheiro de alguém que ele disse ser "praticante da crença homossexual". Essa sequência é particularmente muito engraçada, posto que a negação e a realidade se encontram, originando o seguinte diálogo:

"- Mas você é...?

- Gay?

- ... praticante da crença homossexual?

- Você faz parecer uma religião... Se for, pode me considerar um fiel, completamente fanático.

- Mas isso é contra as leis de Deus!

- Deus é gay.

- Como? Como pode dizer isso? Deus é o criador dos céus, da terra, das plantas, das árvores, das cores...

- Pois é. Ele é decorador. "



Como se sabe, depois da escrita do roteiro, nada mais é tão pessoal nos filmes de Woody Allen do que a trilha sonora. Neste filme, particularmente, ele escolheu e usou de forma muito ampla a música: jazz dos anos 1920, e 1940 (o típico mundo musical de seus filmes); a 9ª e a 5ª sinfonias de Beethoven, rock, pop, bossa-nova e trechos de um musical de Fred Astaire.

Além desse amplo universo musical, a direção de arte e as locações merecem um olhar mais fixo. Pode-se observar que o interior da casa de Boris é relativamente desprovido de coisas, enquanto o subúrbio onde mora (que compreende um bairro chinês) é abarrotado de placas, cores, barracas, objetos. Nesse caso, a fotografia de Harris Savides acompanhou a descaracterização dos interiores, sempre fotografados em tons fracos, escuros, com predomínio de cores frias e ironicamente pontuado por luzes externas de cores contrastantes - vide a cena em que Boris chega da casa dos amigos e há uma luz verde e amarela reluzente através da janela. Ele se move para a direita e a câmera o acompanha em plano-médio, então, na segunda janela, brilha uma fortíssima luz vermelha. A mesma coisa se repete na cena final: do contraste das muitas luzes da Quinta Avenida em pleno Réveillon, para uma sala de estar quase completamente marrom, embora elementos de outras cores (as luminárias chinesas) pontuem o aposento. Não é forçoso identificarmos um contraste entre interior e exterior do homem através das internas e externas do filme.

Tudo pode dar certo é uma comédia pessimista aparentemente simples. Seu conteúdo crítico é praticamente um universo à parte. Woody Allen identifica nas neuroses e questões pessoais relacionadas ao mundo, as causas do mau funcionamento da família, o que gera insatisfações, maus pais, maus casamentos, falsos fiéis, filhos desorientados. No final, a descrença na humanidade é patente. Pseudo-feliz, o desfecho do filme acende a chama das boas possibilidades, mas retira toda a esperança de durabilidade desses momentos de felicidade. Aos 74 anos, Woody Allen permanece com o seu lema de "um filme por ano", que sustenta desde Sonhos eróticos de uma noite de verão, de 1982. E a cada ano, é impossível negar a sua profunda e peculiar forma de ver o funcionamento meio circense do mundo e de transformar isso em matéria bruta para inquestionáveis filmes notáveis ou obras-primas. Nesse sentido, não se pode furtar a inscrição do nome do cineasta no topo da lista dos melhores diretores da atualidade.


TUDO PODE DAR CERTO (Whatever Works, EUA, França, 2009)

Direção: Woody Allen.

Elenco principal: Evan Rachel Wood, Larry David, Patricia Clarkson, Carolyn McCormick, Yolanda Ross, Henry Cavill, Michael McKean, Nicole Patrick, Lyle Kanouse, Adam Brooks.



Escrito por Luiz Santiago às 18h17
[] [envie esta mensagem] []



NOVAS

 

Deixo para vocês dois links de meus escritos recentes:

 

 

No Cine Revista, o artigo: O HERÓI OPACO E A FRACA TRAMA DE RIDLEY SCOTT.

 

Link direto: http://www.cinerevista.com.br/artigos/RobinHood.htm

 

 

 

No Mnemocine, o artigo: SHORTBUS: A FUGA E O DESESPERO DAS GERAÇÕES.

 

Link direto: http://www.mnemocine.art.br/index.php?option=com_content&view=article&id=208:shortbus-a-fuga-e-o-desespero-das-geracoes&catid=40:critica&Itemid=67

 

 

Boa leitura aê! 



Escrito por Luiz Santiago às 18h03
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Histórico
    Outros sites
    Cinebulição
    O Buraco
    Terra Efêmera
    L'Éthranger
    Neblina e Sombras
    Sutilmente
    Pensamento Jovem
    Cine Revista
    Mnemocine
    O Olho da História
    Meu Cineplayer
    Film Poster
    Mimados
    Polish Film Poster
    Hieróglifos
    Zdzislaw Beksinski
    Britannica
    Calvin
    Casa do Poster
    Mafalda
    Clube do Pança
    Festival do Minuto
    Garfield
    História da Publicidade
    Horácio
    Nóis na Tira
    Porta-Curtas
    Propagandas Antigas
    Turma da Mônica
    Universo HQ
    Blog dos Quadrinhos
    Tiras Nacionais
    Camará - Quadrinhos
    Cahiers du Cinema
    Jornais do Mundo
    Dicionário - Português